terça-feira, 4 de agosto de 2015

Dor

Primeiro é a dor no peito. Porque a manifestação sempre começa física. É um formigamento inicialmente localizado que avança pelo braço até a ponta dos dedos, antes de evoluir para um aperto. Nada muito forte, mas suficiente para chamar a sua atenção. A respiração acelera e encurta. 

Então são os olhos, que se enchem d'água. Nem uma lágrima desce, é mais como uma reação alérgica. Uma leve vermelhidão é observável, enquanto as pupilas se dilatam. Há vezes em que a visão fica algo turva, nublada pela umidade repentina. A boca responde de forma inversa, e a saliva evapora num átimo. Não se sente mais o nariz.

O próximo estágio é no estômago. Uma sensação de compressão. Não como a de um enjoo; mais como aquele nanossegundo em que o elevador começa a descer mais rápido do que o esperado. Só que é como se esse momento estivesse congelado por vários minutos, numa longa impressão de pré-queda-livre. Mesmo já tendo passado por isso diversas vezes, você experimenta tudo como uma completa novidade.

A opressão física finalmente dispara respostas psíquicas. Você sabe que precisa fazer alguma coisa pra interromper o processo, o mais rápido possível. Mas também tem certeza de que nada ao seu alcance pode ser feito. Sua atividade cerebral acelera vertiginosamente, revisando todas as alternativas, e descartando-as uma a uma imediatamente. A velocidade crescente dessas iterações provoca um princípio de tontura, e em seguida seu total alheamento do mundo ao redor. Muitas vezes as paredes dançam. Em outras, a sensação é de que as três dimensões do universo estão sendo comprimidas na direção de um único ponto, você - um big bang invertido.

 Bom, e tem também os dias realmente ruins. Esses, não adianta. São inefáveis.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Pelo Menos

Olha, já fiz muita coisa nesses nem tão longos anos de vida. Essa minha mistura de alma livre com espírito de porco realmente não combina com dedicação longeva a nada, sejam relacionamentos amorosos ou trabalhistas. Admito então que minha constante lisura (não no sentido ético, e sim no tátil/monetário) é devida bem menos às injustiças do tal Sistema e bem mais à minha eterna postura de cafajestagem proletária. Já bati ponto tanto em escritório (o equivalente laboral de namorar uma menina carola: tudo é regra, nada pode, respeite meu tempo) quanto em comércio (uma ninfomaníaca mais preocupada com desempenho do que com envolvimento emocional), já fui garçom de botequim (muito parecido com pegar mulher muito gata, sempre parece melhor na teoria do que é na prática) e até autônomo (paralelos onanistas ficam a cargo do leitor).

Agora, com certeza absoluta, o pior emprego que já tive foi de recepcionista em um instituto de depilação. Nem me pergunte como fui parar nisso, também não sei direito. Só lembro vagamente de algum tipo de encontro fortuito entre necessidades desesperadas - de dinheiro, de minha parte; de qualquer alguém, da parte da gerente da loja, disposta até mesmo a abrir mão da política de contratação exclusivamente feminista vigente em todas as filiais da rede. Foi só quando me vi sentado naquela sala, cercado e oprimido por tons de rosa e violeta, usando uma camisa polo salmão de modelagem inadequada para meu tipo físico (ou melhor, para meu gênero), é que realmente percebi no que tinha me metido. Estava deslocado como um personagem do Wes Anderson.


É difícil identificar precisamente o que fez com que aquelas duas semanas parecessem tão bizarras. Ver uma cliente após outra frear com brusquidão e arregalar cartunescamente os olhos ao se deparar com um marmanjo barbado atrás do balcão logo após transposta a porta de vidro por certo não foi um bálsamo para minha autoestima, mas até que foi se tornando engraçado após as primeiras vinte vezes. A repetição igualmente suavizou o impacto da insólita troca inicial de palavras ("Boa tarde, qual o serviço?" "Virilha total" "Perdão, senhora?" "Virilha total" "Virilha, senhora?" "Uhum"). O desfile de silly walks, de dar inveja ao Excelentíssimo Ministro John Cleese, protagonizado pelas sensibilizadas freguesas após a execução dos serviços contratados pode ser categorizado quase como um bônus. Não, nada disso explica.

Pensando bem, acho que houve um evento determinante para transformar uma experiência até então apenas excêntrica em desesperadora. Nada para um homem tem efeito mais desmistificador, mais desorientador de valores, mais desconstrutor da realidade do que ouvir aquela morena maravilhosa, uma das raras unanimidades no eterno fla-flu da resenha praiana, perguntar se ainda está valendo a promoção de buço grátis com o pacote de ânus, nádegas e costas. Nessa hora, evocando Maysa, tratei de recolher os cacos espalhados do meu mundinho caído, toda pureza masculina e inocência estética arrancadas de mim em um só golpe de cera quente.  


(Cumprir o prazo autoimposto ou revisar mais uma vez? Na dúvida, fiquemos com nenhuma das opções anteriores.)

segunda-feira, 30 de março de 2015

Eva

Ela abre os olhos, que demoram a encontrar foco. Tudo é cinza, nada parece familiar. O corpo nu pesa, e demora a responder. A sensação é de anestesiamento total. Aos poucos, o sangue parece voltar a circular, e ela lentamente consegue reunir forças para se sentar. A memória, no entanto, ainda não dá sinais de funcionamento normalizado. O quarto é um cubículo cinzento e minúsculo, de aspecto asséptico; não há nada além do leito em que dormia e uma pequena mesa de apoio metálica, onde está uma folha de papel dobrada ao meio. Ainda repleta de câimbras, alcança o papel com um movimento estabanado. Parece um bilhete longo, ou uma carta. As letras esmaecidas dançam sobre o fundo amarelado, e é necessário concentração extrema para que o balé possa ser acompanhado por suas pupilas sonolentas.

“Meu amor,

O que vínhamos esperando há tempos finalmente aconteceu. São 11 horas, e ainda não há sinal da luz do Sol. É certo que ele não irá mais aparecer no horizonte, nunca mais. Todas as mídias - todas as que restaram - anunciam em tons épicos (e um tanto melodramáticos) o Fim da Odisseia Terrestre. Apesar disso, o sentimento que se percebe nas socnets é de apatia e resignação. As ondas incendiárias e suicidas arrefeceram nos últimos tempos, e os que restaram aparentemente já haviam internalizado que a aventura humana se aproximava do seu capítulo final.”



A leitura a deixa tonteada. Resolve tentar se levantar. O toque dos pés no chão frio parece elétrico. Com apoio das mãos na borda do leito, busca o equilíbrio. Após um momento, ganha confiança para dar o primeiro passo. Encadeia um segundo e um terceiro, em direção à quase imperceptível porta que separa o cômodo do desconhecido.

“Era o sinal que estávamos aguardando para dar seguimento ao Projeto. A “arca”, como você mesmo a apelidou, vem sendo preparada há anos; o trabalho já pode ser considerado concluído, na medida do possível, há pelo menos 2 meses - o que não impediu a equipe de continuar com o processo de coleta e arquivamento de amostras consideradas mais viáveis até o último raio solar esmaecer. Todos estão reunidos na sala central, aguardando minhas últimas instruções. E, presumivelmente, nosso adeus.”

Sua aproximação faz com que a porta se abra automaticamente, descortinando uma sala algumas vezes maior do que o cômodo anterior, com telas, botões e controles ocupando todas as paredes exceto uma, coberta por um cartaz em estilo retrofuturista que exibia um foguete em direção a uma Lua com rosto humano e a legenda “Para além do infinito”.

"A responsabilidade me congela. Certamente você saberia o que dizer a todos nessa hora. Como fazer com que cada um se sentisse recompensado pela intensa dedicação a uma meta que nenhum deles verá ser atingida. Como deixá-los com um gosto de esperança, mesmo diante do fato de que estão presenciando a partida da última astronave. Mas, ainda que eu saiba que você estará ao meu lado, sinto que não lhe farei justiça."

Por trás do cartaz parecia haver outra porta. De perto é possível perceber um sensor, vagamente familiar, onde em outra dimensão ou era poderia haver uma maçaneta. O instinto a faz estender a mão espalmada na superfície do sensor, que responde com uma luz intermitente e, em seguida, uma mensagem. ACESSO AUTORIZADO - E.V.E..

"Bom, é hora de partirmos. Confesso estar apreensivo. Se tudo correr bem, nos encontraremos dentro de algum tempo, lá no alto. Ou melhor, ali na sala ao lado. Sei que é necessário que você restabeleça suas energias para que possa nos guiar na longa jornada após deixarmos a Galáxia. Mas não é nada confortável imaginar essa situação paradoxal: solitário, mas acompanhado. Sozinho, com você."

O cartaz desaparece com o deslocamento lateral da porta, dando acesso a uma sala ainda mais ampla e profunda. Milhares de pequenos receptáculos isolados por trás de um painel transparente espalham-se por todo o lado direito, enquanto no esquerdo há um arremedo de habitação humana, composto por três módulos contíguos que emulam uma sala de convivência, um quarto de repouso e um espaço mais reservado, provavelmente para as funções corpóreas de que os humanos tanto se envergonham. Ao fundo, uma célula hiperbárica aparenta ter iniciado o processo de despressurização.

"Antes de ir, preciso lhe contar uma coisa. Em um sonho recorrente nos últimos tempos, sou acordado por seu corpo me cobrindo em um abraço que, apesar de nunca durar mais do que um instante, recupera plenamente minhas forças. Quando encontrar essa carta, que com sorte resistirá até que você desperte, é possível que meu estágio de deterioração celular já tenha me obrigado à reclusão prolongada. Não se acanhe; venha até mim. A única razão que tenho para prosseguir, mesmo sabendo que meu planeta e minha espécie estarão reduzidos a nada, é a oportunidade de viver esse momento. É pouco nobre para um Almirante diante de sua derradeira missão, eu sei, mas não adianta mais fingir. Desde agora, e para sempre, tudo o que me resta é aguardar você.
                                                                                                                      Adm. N."

Ela percorre toda a sala, alcançando a célula no exato instante em que esta acabava de se abrir por completo, revelando por baixo de um lençol tão branco quanto seus cabelos e barba enormemente longos o corpo ressequido, descarnado e inerte do Almirante. Remove com cuidado o lençol e se aninha no exíguo espaço ao seu lado, envolvendo-o em um abraço. Um halo esverdeado os circunda por um átimo. Obviamente, é tarde demais.


(Não-tão-livremente adaptado do clássico axezeiro Eva, canção popularizada nacionalmente na voz de Ivete Sangalo, mas originalmente composta e cantada por um italiano)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Seferović

A cada corrida esbaforida e inútil de Josip, que teimosamente cismava em se colocar (ou se esconder) entre os zagueiros de azul, Haris olhava de canto de olho para o velho Alemão, procurando algum sinal de que haveria mais alguma substituição. Já havia perdido uma chance para o albanês no intervalo, que a aproveitou logo de cara e tinha a honra de carregar até o momento a glória de livrar o time de uma derrota logo na estreia. Sentia que podia fazer mais do que o atual queridinho da equipe, que pra piorar ainda era croata. Dane-se que tenha sido quase artilheiro, pensou, é mole ser craque de time rebaixado. O tempo passava. Lembranças do campeonato de 2009 insistiam em assombrá-lo. O cruzamento vindo da esquerda, da marca de escanteio, o impulso por trás do zagueiro, a testada no canto do gol, o título, a artilharia. O que parecia ser o início de sua decolagem era, até agora, o ápice da sua trajetória profissional. Hoje, cinco difíceis anos depois, estava mais uma vez em uma Copa (só que agora na de verdade); mas, de seu assento de espectador mais do que VIP, nada podia fazer para ajudar sua equipe e, de quebra, relançar sua carreira. Já se aproximavam a metade do segundo tempo e o fim de suas esperanças quando o velho lhe deu o sinal. Suava frio e tentava se concentrar enquanto amarrava as chuteiras brancas. Era o momento de mostrar ao destino (e ao Alemão) que ele era capaz.

*****


Mais uma tarde infeliz. Quinze minutos correndo como um doido, quase sem pegar na bola. Viu de relance a placa ao lado do campo indicar os acréscimos; parecia indicar também que não seria dessa vez que ele conseguiria reconquistar seu espaço. E poderia piorar. Do meio de campo assistiu ao único dos oponentes de quem já tinha ouvido falar disparar pela lateral até entrar na área. Prendeu a respiração ao vê-lo centrar a bola e encontrar um companheiro livre. Esperou de olhos fechados o grito de gol da torcida adversária, ampla maioria. O grito não veio. Ao abrir os olhos, percebeu que o kosovar marrento havia impedido o chute fatal, e partia em sua direção. Sentiu as pernas enterradas no chão, e só conseguiu vencer a inércia ao vê-lo se recuperar de um misto de golpe de MMA e abraço desesperado de um dos adversários a tempo de prosseguir com a jogada. Coincidentemente, recebeu dele a bola em seguida. Todo o time pedia pressa, mas não podia arriscar. Tomou seu tempo, parou a bola e levantou a cabeça. Observou o Latin Lover projetando-se freneticamente na outra ponta, e tentou uma inversão perigosa. As pernas ainda pesadas quase não responderam a contento, e teve sorte de o companheiro conseguir a matada. Olhou para frente e viu um corredor aberto. Corre, que ele vai cruzar. E correu. O cruzamento veio, da esquerda. Ele continuou correndo, por trás do zagueiro. A bola tocou em seu pé esquerdo, e entrou no canto do gol. Continuou correndo. Só parou quando já estava sendo agarrado simultaneamente por quatro colegas de time. Sem saber se berrava ou chorava, caminhou na direção do banco, devolvendo 
quase distraidamente os efusivos cumprimentos que recebia. Queria mesmo era ouvir o que o Alemão tinha a dizer. Hoje seria o dia em que retomaria o comando do curso de sua vida.


Suíça 2 x 1 Equador (Gol de Seferović)



domingo, 9 de março de 2014

O céu

Onde estiver
Estarei com você
E se quiser me ver
Olhe pro céu

E quando o mar
Tentar atrapalhar
Se não mais aguentar
Olhe pro céu

Eu sei que é ruim lembrar
Mas tente se acalmar
E olhar pro céu

Você pode acreditar
O mar não nos separará
E então o céu nos unirá
O céu nos unirá

Não fique assim
Por termos que esperar
E se quiser chorar
Olhe pro céu

Então, enfim,
O dia chegará
E me encontrará
Chegando ao céu

Você pode acreditar
O mar não nos separará
E então o céu nos unirá
O céu nos unirá


(Adaptado de forma extremamente tosca e livre de Yellow, do Coldplay. Também do período 2000/2001. )

domingo, 29 de dezembro de 2013

Um longo dezembro

Um longo dezembro, e há motivos para crer
Que no ano novo tudo pode melhorar
Já nem mais lembro o que tinha pra dizer
Agora que o tempo corre sem parar

E é só mais um dia de domingo
E é só mais uma noite de verão
O que mais queria era estar contigo
E o teu perdão

O cheiro de suor na areia
Um infinito de gente oca, sem sabor
Só me resta observar a praia cheia
E inebriar-me com as ondas de calor

E é só mais um dia de domingo
E é só mais uma noite de verão
E se algo diz que é hora de continuar
Ainda não

Num bar vazio, pouco antes de uma da manhã
Discutindo o ano velho com os locais
Tonto de calor, do álcool e da angústia
Posso rir da minha desgraça e de tudo que não vou ter mais

Um longo dezembro, e há motivos para crer
Que no ano novo tudo pode melhorar
Já nem me lembro o quanto quis me convencer
Que momentos como os nossos iam durar

E é só mais um dia de domingo
E é só mais uma noite de verão
Um mar de flores que parece me chamar
Adeus então




(Livremente adaptado de A Long December, dos muitas vezes injustiçados Counting Crows. Não dá pra ser mais 1996 do que um clipe com a Monica do Friends.)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

No metrô (de novo)

“Anda, fecha logo essa desgraça”, mentaliza mirando fixamente a porta aberta na estação Botafogo há mais de cinco minutos, dois dos quais sob a trilha sonora do agradabilíssimo guincho que supostamente significa que a composição partirá em alguns segundos, após conferir pela terceira vez no celular quantos minutos lhe restam antes de estar oficialmente atrasado para a reunião com os sócios convocada exclusivamente para que apresentasse a proposta de reformulação que já lhe tomava longos meses de dedicação e que provavelmente seria sua única oportunidade de mostrar serviço para além das fronteiras burocráticas do departamento no qual trabalhava. Quando as portas finalmente começam a se fechar, ele desvia o olhar uma vez mais para o aparelho telefônico para verificar se recebera resposta à mensagem eletrônica enviada à secretária do chefe justificando o potencial atraso, mas sua atenção é prontamente atraída pela brusca movimentação de um vulto que se espreme pela fresta das portas já quase cerradas, por pouco não deixando sua bolsa presa do lado de fora do vagão, resgatada com um puxão impulsionado por um giro quase completo de corpo. Observa então a moça, uns dois ou três anos mais nova do que ele, tentando recuperar o fôlego exaurido com a carreira dada para não perder o trem enquanto, em busca de uma acomodação no fundo do vagão, ela vem em sua direção. Quando para a dois corpos de distância, algo nela lhe desperta uma inquietude estranha, um tipo de identificação ou familiaridade. Não mais do que dois segundos são necessários para que percebesse de onde vinha a sensação: ela de algum modo o fazia lembrar-se de sua ex. Não sabia dizer por que razão, já que nada as assemelhava além do tipo físico, compartilhado também com metade da população feminina da cidade; era um pouco mais alta, um tantinho mais encorpada e tinha os cabelos meio cacheados, distintos dos fios lisíssimos d’Aquela-Que-Não-Devia-Ser-Nomeada. Talvez fossem as roupas, embora o roxo-púrpura da saia destoasse dos onipresentes tons pastéis com os quais nunca realmente chegara a se acostumar, e jamais a vira com um casaco estilo vó como aquele que a bela desconhecida usava. As sapatilhas, sim, eram a sua cara, possivelmente idênticas a alguma das que ela usava quando iam juntos aos bailes, antes daquele maldito hippie mexer com sua cabeça e convencê-la de que não estava em seu destino ficarem juntos. Será que a garota também dançava? Poderia tentar usar isso pra puxar papo, tipo “você não frequenta o Democráticos nas quartas?”, ou algo um pouco menos infame do que variações genéricas do vem-sempre-aqui. Quem sabe ela até o reconheceria; talvez conhecessem pessoas em comum, e já até mesmo teriam se cruzado rapidamente uma vez - em uma festa de aniversário da professora de zouk daquela academia de Laranjeiras, no CCC. É pena que não tivessem dançado naquela ocasião, mas de repente podiam se encontrar no forró de Santa Teresa desse sábado; já estava combinando com um pessoal, iam se encontrar ali perto da Praça São Salvador, se não tivesse marcado com ninguém podia se juntar a eles. Então, vencidos o desconforto e a timidez iniciais, conversariam e dançariam quase toda a noite, intercalando outros parceiros eventualmente só para não incentivar as piadas e provocações dos seus colegas de dança usuais, e no finzinho do baile, ao som de um xote (Colo de Menina ou Anjo, não conseguia se decidir), ele tomaria coragem e pediria - e ganharia - um beijo. Desceriam abraçadinhos, nem ligando para a van superlotada e barulhenta, e se despediriam na esquina da Rua Alice com um último beijo e a promessa de se verem de novo na tarde do dia seguinte. O celular vibra, é uma mensagem. Ele espera que seja dela, agradecendo a linda noite e, com sorte, até mesmo se declarando apaixonada. “KD VC KRALHO, JAH TAH TD MUNDO AKI”, mostra a tela do telefone. Olha para o lado e vê, pela janela do vagão, sua potencial futura namorada se dirigindo a uma das saídas da plataforma, enquanto o trem começa a se deslocar. A sensual e poliglota voz do metrô anuncia “Next Stop, Carioca”, e nada mais lhe resta a não ser se juntar à manada que se amontoa junto às portas para desembarcar na próxima parada, rumo aos esporros desmoralizantes de mais um dia de trabalho.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Branco, ou o 30

“Hoje não durmo antes de terminar alguma coisa”, afirmou para si mesmo, decidido a pôr fim no hiato produtivo que já durava quase um mês, justamente no que seria a trigésima postagem do blog. Enquanto aguardava o sistema operacional do computador já um tanto ultrapassado carregar completamente, iniciou o processo mental de seleção da trilha adequada para a sessão de escrita do dia. Estava quase decidido por resgatar o Blue da Joni Mitchell, em homenagem a seu aniversário de setenta anos, mas ao abrir o diretório de músicas resolveu alterar o plano e colocar pra tocar o disco duplo (conceito que perdeu por completo o sentido com a erradicação total dos álbuns físicos) ao vivo do Ben Harper, começando com o “lado” acústico. Abriu em seguida a pasta do Google Drive onde estavam arquivados os sete rascunhos em andamento. Descartou de cara aquele que, além de já ter sido parcialmente publicado, tinha sido revisitado há menos de duas semanas, quando, para ser enquadrado nos padrões restritivos de um determinado site, foi submetido a um esforço de edição mutilante que desafiou sua tão cara prolixidade e consumiu quase por completo suas energias “literárias”. Tampouco se sentia no espírito de dar prosseguimento ao narcísico exercício autoficcional, também divulgado parcialmente, que ocupara quase com exclusividade os dois meses anteriores. Havia ainda duas adaptações de letras pela metade, ambas bloqueadas por sua incompetência em verter alguns dos versos centrais de forma aceitável, conservando tanto o sentido quanto a musicalidade. Sobravam apenas um parágrafo escrito há mais de quatro meses, que ainda não havia sido abandonado de vez somente por excesso de apego, e dois textos inspirados em maior ou menor grau em passagens ocorridas com amigos de infância, um dos quais deixado de lado temporariamente por fazer emergir um conjunto de lembranças deprimentes que em nada facilitava o esperado retorno da produtividade. Decidiu então abrir o arquivo restante, que continha mais uma tentativa de contar uma estória ambientada no metrô, sua fonte diária de observações, ideias e desilusão com a humanidade. Releu as cerca de quatrocentas palavras já escritas anteriormente sem grande entusiasmo, particularmente incomodado com a utilização indiscriminada de experiências traumáticas de pessoas queridas de um modo que agora lhe parecia desrespeitoso. Alterou algumas partes, colocando-se no lugar do personagem principal, mas com isso só conseguiu descaracterizar parcialmente a estória do amigo e remover boa parte de sua graça. O falsete de Ben Harper, atingindo o auge da performance após decorrida meia hora de show, já afirmava categoricamente, citando o Verve, que as drogas não funcionam e só te deixam pior, o que ele tomou como uma dica para abandonar todos aqueles textos autorreferenciados e partir para o garimpo de algum tema na sua lista de ideias ainda não desenvolvidas, que contava com dezessete itens naquele momento. Só iria trabalhar nos que fossem completamente ficcionais, sem base em nenhuma memória pessoal. Percorrendo a lista sem muito critério, parou em uma ideia que parecia promissora, com potencial para uma abordagem mesclando ironia e nonsense, as características que ele mais prezava e que mais tinha dificuldade de imprimir em seus textos. Começou a estruturar a estória na cabeça, mas antes mesmo de esboçar as primeiras frases se deu conta de que aquilo não era nada além de uma versão exagerada de um telefonema estranho que havia recebido uns meses atrás. Fiel à determinação de se excluir por completo das estórias, voltou à lista. Seguiram-se mais de trinta minutos de esforços vãos, até as últimas notas de I’ll Rise calarem o Media Player. Os temas se revelaram, um a um, derivações diretas de fatos experimentados ou observados por ele ao longo de sua vida, de um modo que não era capaz de evitar. Acabou por aceitar a derrota e se conformar novamente com o fato de que era o que era: um ególatra descarado incapaz de pensar em algo além de sua própria vida desinteressante. Abriu um novo arquivo na pasta de rascunhos e começou a digitar: “Hoje não durmo antes de terminar alguma coisa”.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Narcisofrenia Transpessoal - 4

(Tudo começa aqui)

Começou no ano em que o mundo deveria acabar, atingido por tempestades solares que desligariam por décadas todos os equipamentos eletrônicos existentes e por meteoros que detonariam terremotos com potencial devastador inédito, ao menos segundo uma profecia esdrúxula supostamente baseada no fim do calendário maia. Mas o número que o incomodava não tinha quatro dígitos, e sim dois: em 2012 ele virava o primeiro dígito de seu odômetro pela terceira vez. 


Não parecia a princípio que o trigésimo aniversário o atingiria com tanta força; ao contrário, era um dos menos assustados com o fato entre seus colegas de idade. Perfeitamente adaptado a uma vida pós-adolescente, morava em um quarto com acesso independente no apartamento dos pais e era um razoavelmente bem-sucedido executivo de baixo escalão da burocracia interna de uma empresa estatal de relativa importância. Como contraponto, sustentava algumas manifestações vestigiais de rebeldia autossatisfatória: cultivava barba e cabelos maiores do que o recomendável (mas perfeitamente dentro do aceitável), e cantava e tocava contrabaixo em uma banda que tocava rocks clássicos da forma mais canônica possível. Digno de uma letra ácida de Thom Yorke pré-2000 - como um porco enjaulado sob o efeito de antibióticos.

Mas bastou um gatilho externo para armar a bomba-calendário. Sua namorada de anos encheu-se do chove não molha de um relacionamento cada vez mais inercial e colocou-o contra a parede: até quando iria manter-se nesta passividade disfarçadamente adequada? Já não era chegada a hora de subir de nível, evoluir, crescer? De modo nada inesperado, a resposta não foi a que ela gostaria, com o que se decidiu por largar de um só golpe emprego, namorado e o Rio de Janeiro e aceitar um convite para ser consultora do Ministério da Saúde em Brasília. Mas não sem antes, como não poderia deixar de ser, aplicar-lhe um esculacho desmoralizantemente épico, do tipo que só uma ex é capaz de desferir. 

Ficou devastado. Idolatrava-a (apesar de nunca ter sido capaz de demonstrar com clareza), especialmente pelo que mais os diferenciava: a determinação e a inquietude que, ironicamente, acabaram por provocar o término da relação. Por dias se martirizou, mergulhando nas profundezas mais obscuras da autopiedade em busca de alguma sensação reconfortante que pudesse lhe sugerir que não havia culpados. Ou, pelo menos, que a culpa não havia sido sua. Essa imersão acabou por provocar o que hoje chamava de Dia D, o ponto de inflexão. Daí pra diante, nada mais foi como antes.

Não gostava de se lembrar desse dia, ou dos seguintes, então decidiu que o momento de investigação psico-histórica pós-refeição estava encerrado. Já era hora de voltar ao sebo, afinal.

(continua)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Narcisofrenia Transpessoal - 3

(Tudo começa aqui)



- Boa tarde, seu livreiro. O cumprimento da operadora da balança o despertou de seus devaneios rancorosos, fazendo-o perceber que já havia roboticamente entrado no restaurante e preparado seu prato, com os mesmos itens de toda quarta-feira. 


- Quatrocentos e cinquenta gramas de novo! Vou começar a apostar... Um mate pra beber, né?

Apenas sorriu e assentiu com a cabeça. Pegou a bandeja e se dirigiu à “sua” mesa, ao fundo do salão adjacente, sentando-se de costas para o gigantesco quadro dos anjos - os Querubins de Rafael, ao que parece - que o assustava tão inexplicável quanto terrivelmente. Preferia o mau gosto inofensivo das pavorosas telas de arte naif que tentativamente enfeitavam as laterais do ambiente. 

Nem bem havia sentado e percebeu outra figura familiar entrando. Era a Velhinha Sorridente, com quem cruzava no almoço quase todos os dias. Tinha não mais de 1,50 de altura e não menos de 80 anos, cabelos como que lavados em um comercial de Omo Multiação, e vestia sempre conjuntinhos de viscose, camisa e calça das mesmas cores, sempre cítricas, duelando com Keds minúsculos, sempre brancos. Achava engraçado como ela tratava o almoço como um evento, cumprindo sempre o mesmo ritual: saudava a todas as atendentes, deixava suas bolsas e sacolas na mesma mesa, reclamava da altura da TV com a caixa, aproveitava pra comentar o que quer que estivesse passando, voltava pra se servir, levando meia hora entre decidir o que escolher, sondar o que ainda estava pra sair da cozinha, perguntar os ingredientes de cada prato (que eram os mesmos todas as semanas) e finalmente se sentar à mesa. Alguns minutos depois, de modo quase farsesco, o rito se repetia, apenas substituindo o prato de porcelana por uma quentinha de alumínio, presumivelmente seu jantar. 

Foi quando ela o cumprimentou que despencou a ficha do orelhão da obviedade: como podia debochar da Velhinha se tinha uma rotina tão ritualística quanto a dela? Da mesma forma automática com que tinha chegado, se servido e começado a almoçar, iria em seguida pagar (algo entre R$ 18 e 20), olhar a hora, concluir que tinha comido muito rápido (e que isso devia fazer mal), e resolver dar uma volta (ou na praia ou na Praça dos Paraíbas), retornando cerca de meia hora depois para o sebo. E não era privilégio do almoço, havia programações semelhantes para a manhã e a noite também.

Foi pego de surpresa pela constatação, principalmente porque a sensação não era nova em sua vida. Aliás, da última vez que ocorreu foi o estopim de uma revolução pessoal, que começou no Dia D e culminou na compra do Sebolinha. Tudo em vão, ao que pareceu agora: estava de volta ao moto-contínuo burocrático de 2 anos atrás. Resolveu aproveitar a inevitável esticada pós-refeição para reconstituir, sentado no banco da praça, o trajeto que o havia levado até ali, e tentar descobrir o que dera errado.



segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Narcisofrenia Transpessoal - 2

(Prólogo, P1)

Enquanto se encaminhava para o pequeno e inofensivo restaurante a quilo do outro lado da rua, após a tradicional saraivada de espirros que acompanhava o guinchar da porta a cada vez que saía para almoçar ou para encerrar os trabalhos do dia, pensou em como odiava Rui, seu empregado. Além da personalidade detestável (obnoxious, segundo Pena, seu amigo e auxiliar aos fins de semana), era péssimo no trabalho, muito provavelmente por não considerá-lo realmente um trabalho e sim uma ocupação transitória. Seu destino era a Academia, dizia, apesar de já ser pré-balzaquiano e seu Lattes não mostrar nada mais que uma graduação recém-concluída, após quase 10 anos de intenso envolvimento político em Centros e Diretórios Acadêmicos espalhados por todo IFCS, casualmente concorrente com as obrigações propriamente universitárias. Não tinha pudores em discorrer longamente sobre seu projeto de mestrado, já duplamente rejeitado (“culpa do corporativismo do comitê de seleção”), e em confirmar que a atividade atual era apenas para “aplacar a histeria pequeno-burguesa” de sua mãe (que exercia sua fúria reacionária preparando as marmitas vespertinas trazidas pelo filho diariamente em sua mochila de cânhamo, pouco antes de gentilmente acordá-lo com sussurros delicados e um tamborilar de dedos na porta do quarto), enquanto não iniciava sua certamente gloriosa vida profissional como pesquisador.

Já tinha pensado em demiti-lo algumas vezes; da última, quase foi obrigado. Foi um dos momentos mais difíceis desde que tinha assumido o Sebolinha (arrependimento nº 1.763: maldito nome-trocadalho), e quase resultou no fechamento da loja. Começou, como sempre, em um debate entre Rui e um dos demís (codinome interno para os “meio intelectuais, meio de esquerda”), frequentador dos mais assíduos à época. O assunto era alguma baboseira sobre as novas fronteiras do pensamento revolucionário pós-moderno. Quando, inevitavelmente, ele evocou o nome do tal Zizek (ou “Gigek”, ênfase no “k”, como fazia questão de pronunciar), apóstolo maior dessa congregação, a coisa começou a desandar.

- A negação do objetivismo enfraquece o poder analítico dele - argumentou o demí.

- Isso é irrelevante, o que importa é a percepção autorreferente da verdade a partir da própria posição subjetiva...

- Mas a tradição materialista hegeliana...

- Na leitura marxiana ou gigekiana? Porque não se pode mais pensar a dialética hegeliana sem considerar a interpretação paraconsistente...

- Ah, você engole esse papo de singularidade universal e violência redentora?

- Engolir? ENGOLIR? O conceito de violência redentora é o único capaz de explicar o século XX, da União Soviética comunista a Hitler!

- E o que o Hitler tem a ver com isso?

- É óbvio que o problema da pseudo-revolução de Hitler é que ele não foi violento o suficiente...

- Quê? Você só pode estar de sacanagem! E o Holocausto?

- O Holocausto e o antissemitismo nazista são a base da identidade judia moderna...

E, antes que Rui pudesse acrescentar mais alguma barbaridade ao prolífico compêndio apresentado nestes breves momentos, o outro rapaz disparou, transtornado, três mil e trezentos xingamentos em menos de um milissegundo enquanto girava sobre os calcanhares, e mais cerca de seis dezenas de milhares ao deixar furibundo a loja, sob os olhares espantados dos outros dois clientes presentes, estrondando a porta ao sair.

O demi era judeu, obviamente. Não satisfeito em apenas nunca mais voltar ao estabelecimento, começou uma campanha difamatória contra o sebo via internet, afirmando injusta mas semicompreensivelmente que o local era “frequentado e administrado por neonazistas antissemitas”. O resultado foi um monstruoso problema comercial, levando-se em conta o fato de que metade dos leitores de livros do Rio de Janeiro é de origem judia e que, por uma característica cultural conhecida, têm especial apreço por adquiri-los usados em sebos, a preços mais atrativos.

A repercussão foi, para os padrões do circuitinho cult zona-sul, bastante grande. Chegaram até a planejar um “abraço” simbólico ao local do evento, posteriormente cancelado quando os organizadores perceberam que o abraço precisaria envolver todo o quarteirão, já que a loja ficava embaixo de um prédio residencial colado em outros dois comerciais. A sorte foi que alguns correligionários de Rui tomaram suas dores e contra-atacaram, acusando o protomovimento antissebolista de “conservadorista” (que não deixa de ser um belo neologismo) e cerceatório, alçando o sebo à condição de último bastião da liberdade de expressão em Copacabana. Newtonianamente, as duas forças equivalentes de imbecilidade, atuando na mesma direção mas em sentidos opostos, acabaram por somar-se em uma resultante nula, e o Sebolinha rapidamente retornou à sua inércia habitual. O saldo foi negativo, no entanto: estava preso ao Rui, inexoravelmente, até que ele tomasse outro rumo na vida. A espera seria longa, suspeitava. 

(continua)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Narcisofrenia Transpessoal - 1


- Merda de alergia – resmungou após o centésimo quadragésimo quarto espirro do dia. Ainda não era nem uma da tarde e a lixeira já transbordava de papéis úmidos de catarro, milhões e milhões de árvores consumidas pela espingarda de cano duplo que nele fazia as vezes de nariz, provavelmente responsável direto por metade do desmatamento mundial. Foi mais uma vez à pia lavar o rosto, e deu de cara com sua versão Rudolf emaconhado – olhos de míope escorrendo e nariz lacrimejando (ou vice versa), ambos ultravermelhos – imaginariamente ostentando um já conhecido semissorriso sarcástico para lembrá-lo do quão pateticamente surreal era o fato de um alérgico trabalhar num sebo.

- Já sei, já sei - respondeu mentalmente a seu espectro debochado – sou um imbecil. Seu ritual de autoflagelação psíquica foi interrompido pelo rangido metálico da porta de entrada da loja. Torceu para que fosse Rui, pra que pudesse aliviar seu surto de espirros respirando um pouco do ar (nada puro ou fresco, mas com menor saturação de alergênicos) da rua. Difícil, já que ainda não havia sido cumprido seu atraso regulamentar.

- O Rui tá aí? - ouviu antes de conseguir voltar ao caixa. A voz era da vendedora da loja de utensílios domésticos ao lado, mais uma integrante da legião de pobres inocentes seduzidas pela explosiva e odiosa combinação de pseudoerudição, discurso revolucionário light e cuidadoso desleixo blasé que compunha a persona pública do vendedor, não muito carinhosamente apelidado de gauchefajeste por seu empregador.

- Não, posso ajudar? – respondeu mecanicamente enquanto abaixava o volume do equipamento de som, imediatamente se dando conta da óbvia resposta negativa, já que o tipo de serviço buscado ele não era capaz de fornecer.

- Não, obrigada, eu volto depois – disse. Fez menção de virar e sair, mas após hesitar por alguns momentos, talvez constrangida pela obviedade da intenção da visita, completou: É que ele me emprestou um livro...

- Dele ou da loja?

- Err, dele, acho... É dele sim - afirmou convicta como um participante do Passa ou Repassa. Bem, queria que ele me explicasse umas coisas que não entendi direito. Toda hora o autor fala de mais-valia, mas não sei o que é isso...

- Qual livro ele te emprestou?

- Esse aqui, disse mostrando uma edição já bastante amarelada de “A interpretação artística do pensamento marxiano em Jung - uma abordagem estruturalista-orgânica”. O preço marcado a lápis na contracapa era a prova cabal de que era propriedade do Capitalista e não do Proletário.

- Posso perguntar por que ele achou que você deveria ler isso? - questionou com um misto de náusea e perplexidade.

- Porque eu disse que estava pensando em ir num analista...

- Ah... 

Foi tudo o que pôde responder, reprimindo ânsias concorrentes de gargalhar e vomitar.

Antes que tivesse que se forçar a tecer algum comentário adicional, o que certamente provocaria mais um dos momentos embaraçosos que eram a marca registrada da sua vida, ouviu novamente o rangido característico da porta, anunciando a chegada de um inadvertido salvador. Talvez fosse a primeira vez que tenha se sentido realmente aliviado com a chegada de Rui. 

- Bom dia, companheiro! Ah, querida, você está aqui! Já leu o livro que te indiquei?

Urgh, companheiro... Blergh, querida... Dois petardos na mesma respiração.

- Depois temos que desconstruir juntos os conceitos, d'accord?

Três e quatro. Combinou consigo mesmo que o prêmio por completar uma linha do seu bingo mental seria a pausa para o almoço. Pensou em ponto extra pelo galicismo, mas julgou que seria desonesto. A espera não seria longa, a experiência lhe dizia, então resolveu agilizar os procedimentos de fechamento parcial do caixa enquanto aguardava sua deixa.

- Rui, esse livro que você me emprestou é muito difícil... Não tem nada mais facinho, mais do meu nível, não? - pontuou ela com uma risadinha.

- Não se diminua assim, querida, jamais! Muitos sutiãs foram queimados para permitir que você pudesse ter a chance de exercer plenamente suas potencialidades...

- Estava só brincando... Poxa...

- Nem de brincadeira você deve se permitir essa violência identitária. O capítulo 17 desse livro aborda como o movimento Riot Grrrl noventista pode ser entendido como uma reinterpretação punk do ethos de Zetkin, em oposição ao femismo redstocking...

- Opa, bingo. Rui, vou almoçar, toma conta do botequim enquanto isso, por favor...

- Claro chefia, pode deixar. Onde estávamos, querida? Ah, na hermenêutica fenomenológica do fato psicossocial subjetivamente material... 

Partiu em disparada antes que tivesse que ouvir o final da frase, justamente quando metais e violinos antecipavam a proclamação definitiva de Mr. James Brown nos autofalantes: "This is a man’s world"...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Narcisofrenia Transpessoal - Prólogo

É melhor que seja esclarecido antes de qualquer outra coisa: é tudo mentira. Ou quase tudo. Bem, na verdade, não sei o quanto é verdade ou mentira. Não foi muito esclarecedor, acho... Vou começar de novo.

Meu nome é Rafael. Mas não sou quem você está pensando que sou. Sou um personagem ficcional, criado (parcialmente) à imagem e semelhança do Autor deste texto, baseado (parcialmente) em uma mistura não-balanceada de características reais, inventadas, copiadas, observadas ou absorvidas. Ao menos, é o que sei. E como só sei o que Ele quer que eu saiba, pode ser tudo mentira - o que faz com que voltemos ao problema anterior. Que seja.

Tenho (ou foi-me dado por Ele - acho que já deu pra entender, né?) um distúrbio neurológico grave, não adequadamente diagnosticado e, portanto, sem tratamento protocolar disponível. Segundo a última atualização do meu prontuário, tenho “características borderliners associadas a sintomas dissociativos, com episódios de surtos maníacos entremeados por psicopatia paranóide reticente”. Este é o mote central da estória, e foi uma das primeiras evidências fortes que tive de que não existia de verdade, era inventado. Mas, por incrível que pareça, não foi a definitiva. Só tive certeza (ou o equivalente aplicável disso a um mundo com “falseabilidade restrita”) quando compreendi que não era realmente paranormal. Permita-me voltar a isso mais tarde (e perdoe-me antecipadamente pelo vai-e-vem narrativo: é difícil ajustar-se à narração cronológica regular).

O que você lê neste momento é o resultado de uma das muitas ações terapêuticas experimentais prognosticadas com o objetivo de controlar minha (suposta) condição psiquiátrica, que, como todas as demais, resultou fracassada. Além disso, e mais importante, é o veículo que documenta a evolução até minha experiência oceânica culminante: a reunião com Ele. 


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Blog (Teaser NFTP)

- Você ainda não comentou no meu blog, disse ela, mascarando o tom de cobrança com certa docilidade forçada.

Tinha ódio mortal de pessoas que têm blogs. Encarava com perplexidade o modo como estes ególatras pós-modernos conseguiam se convencer do delírio narcísico de que seriam personagens interessantes para mais alguém que não eles mesmos e mais meia dúzia de voyeurs e stalkers. Nada que prestasse poderia vir desse exercício tão banal de autoficção, dessa exposição pública de uma versão photoshopeada da própria privacidade - a não ser, obviamente, o autoengano. Tinha pra si que alimentar blogs pessoais era, na verdade, uma tentativa escapista de alterar a própria realidade, reescrevendo-a e assumindo a versão publicada como verdadeira.

- Não sei se você viu o email que eu mandei divulgando… Pretendo escrever sobre várias coisas, mas minha principal influência tem sido Feliz Ano Velho, sabe? Só que estou tentando imprimir uma pegada mais beat, tipo On the Road… Depois dá uma olhada lá, tá bem legal.

Não podia ter feito propaganda pior. Dentre todos os títulos que ao longo de sua nem tão vasta experiência como leitor semiprofissional selecionara para compor a famigerada Lista Tóxica, esses reinavam quase absolutos. Achava intolerável a pretensão deste tipo de autor que, certamente acometido de toda a sorte de alucinações autocomplacentes, crê que seria de benefício do público tirar lições de vida a partir das histórias rocambolescas de um imbecil que no final sempre acaba por pagar por suas inconsequências. Escritores que romanceiam suas próprias vidas merecem todo o desprezo do universo. Pra encerrar com estilo, só faltava ela citar…

- O nome do blog é About a Girl, por causa do Um Grande Garoto, você deve ter percebido.

Nick Hornby. Mestre e senhor da Lista Tóxica, honraria conseguida primeiramente pela combinação radioativa entre literatura autobiográfica e ambientação futebolística de sua primeira obra, mas sacramentada com louvor após anos e anos de maus serviços prestados à representação popular do homem contemporâneo, alguém que, segundo ele, invariavelmente sofre de Síndrome de Peter Pan aguda, manifestada através de uma obsessão doentia por produtos da cultura pop.

Em um exercício hercúleo de contenção, guardou o conjunto de suas opiniões para si. Saiu-se com a primeira desculpa que lhe veio.

- A internet lá em casa anda meio ruim... Mas vou entrar lá sim, pode deixar.

(Isso é uma espécie de pré-prólogo pra série NFTP, que começa aqui)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Grilo

- Falei que não ia prestar.
- Agora não, por favor, tô dirigindo.
- Tudo bem, tudo bem... Só pra lembrar que eu te disse.
- Pra ajudar você não aparece, né?
- Ué, achei que tava te ajudando ao avisar que não ia prestar, mas você não me ouve…
- Quem me dera não te ouvisse mesmo!
- Rá, rá, rá... Engraçadinho você, né não?
- Não tem graça nenhuma. Agora some. Vou acabar batendo o carro com você buzinando na minha orelha.
- Tecnicamente não é na sua orelha que eu…
- “OUT HERE IN THE FIELDS”
- Ih, trilha sonora de C.S.I. New York agora, é? Que é isso, The Who?
- “I FIGHT FOR MY MEALS”
- Foi daquele desenho das formiguinhas também, se não me engano.
- “I GET MY BACK INTO MY LIVING”
- (...)
- “I DON’T NEED TO FIGHT TO PROVE I’M RIGHT”
- Você ainda não percebeu que essa técnica besta da sua analista de cantar musiquinha não funciona?
- “I DON’T NEED TO BE FORGIVEN”
- Tá, finge que não tá me ouvindo, mas eu sei que você tá. Você pode tentar se enganar mas nunca me engana.
- (...)
- Desistiu?
- Não, tô esperando terminar a parte que é o Peter Townshend cantando, só canto a do Roger Daltrey.
- Ah, é? E por quê?
- “SALLY TAKE MY HANDS”
- Ok, ok, já entendi. Quando chegar a parte do violino me avisa, que é o pedaço que eu mais gosto.
- Não dá pra cantar a parte do violino, porra.
- Dãh.
- Já te mandei à merda hoje?
- Três vezes, que eu me lembre.
- E por que você ainda não foi?
- Tecnicamente não consigo ir a muitos lugares…
- Tecnicamente é o cacete.
- Tá ficando putinho? Parece até que a culpa por você ter entrado nessa furada é minha...
- Já sei, você avisou, não precisa repetir de novo. Não devia ter pego dinheiro com agiota.
- Isso, isso, isso…
- Mas agora já era, não adianta ficar lamentando. Tenho que dar um jeito nessa estória antes que ele apareça lá em casa de novo amanhã, quando o prazo vencer.
- E qual o plano? Tem algum?
- Mais ou menos…
- Deixa eu adivinhar: vai pedir pro seu pai de novo?
- Err…
- Brilhante. Realmente genial.
- Tem alguma ideia melhor, espertão?
- Na verdade, tenho sim. Seu pai ainda tem aquele trinta-e-oito velho escondido no armário?
- Sei lá, deve ter. O que eu deveria fazer com ele, dar um tiro no cara?
- De repente…
- Cacete, como assim? Não é meio desproporcional não?
- Não foi o que ele prometeu fazer com você se não pagasse?
- Porra, mas o que eu faria depois? Fugia, largava tudo pra trás? Isso é sugestão que se dê?
- Ninguém disse nada de fugir. Eu sugiro botar a culpa em outra pessoa.
- Em quem?
- Seu amigão aqui se oferece pra te salvar!
- Você? Como assim?
- Não seria inédito; aliás, é uma estratégia de defesa vencedora há séculos… Você pode até contar com o depoimento da sua analista em seu favor.
- (...)
- Convencido?
- Não sei, parece arriscado demais. Além do fato de eu ter que virar um assassino...
- Não é hora para escrúpulos, é questão de vida ou morte. Melhor, de morte ou morte.
- Talvez você tenha razão…
- Eu sempre tenho razão, e você sabe muito bem disso.

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Enquanto observava a poça de sangue que brotava por debaixo do corpanzil inerte à sua frente escorrendo pelo degrau de cimento e avermelhando a ponta branca de seu all-star, pensou ouvir o som de risadas mal abafadas e percebeu Grilo se recolher até sumir. Ao sentir o peso da arma fazendo-a escorregar por sua mão até quase escapar, se deu conta de que aquela cena era a tenebrosa prova definitiva de que nunca havia sido boa ideia dar ouvidos aos palpites do seu sempre inconveniente e inconstante companheiro. Recuperou a empunhadura firme do revólver e encostou com cuidado os lábios em torno do seu cano ainda quente, o gosto de pólvora engrossando sua saliva e deixando-o ainda mais enjoado. Sabia-se culpado, mas era necessário compartilhar a pena com o mentor do crime; iria buscá-lo onde era seu esconderijo.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Futebol Filosófico - Rola a Bola

(partes 1, 2 e 3)

“Nenhum registro encontrado”, poderia ter respondido seu cérebro após revirar todos os bits arquivados em suas redes neurais em busca de uma classificação minimamente adequada para a sensação que experimentava naquele momento. Pela mesma razão, nenhuma interjeição parecia capaz de exprimi-la, o que fez com que acabasse apelando para uma opção genérica que ao menos dava conta da necessidade premente de extravasamento:

- PUTAQUEUPAREU!!!!!!!!!!!!!!!!

O auxiliar técnico já o havia advertido de que os deuses do futebol têm a péssima mania de serem requintadamente cruéis. Se ele ainda não havia sido convertido a esse tipo estranho de paganismo moderno, o gol “espírita” de joelho marcado aos 49 minutos do segundo tempo, que valeu a virada no placar e uma estreia vitoriosa apesar do primeiro tempo catastrófico, já havia sido demonstração de força bastante para empurrá-lo ao menos ao agnosticismo. Os jogadores vinham em sua direção para compartilhar a alegria da superação, em cumprimentos que, se pareciam ultraformais se comparados à efusividade com que se abraçavam e se jogavam sobre o auxiliar (apelidado pelos atletas logo de cara de Papai Sacudo - ou simplesmente P.S. - após a combinação infeliz de uma sessão coletiva de vídeos humorísticos antigos do Hermes e Renato via Youtube e uma escolha equivocada de calça com caimento bastante esquisito), representavam um quebra-gelo em seu relacionamento com eles, também inicialmente contaminado pela descrença generalizada. Aproveitava o momento para agradecer a cada um pela aplicação em campo, reconhecendo que havia sido necessário um voto de confiança e tanto para seguirem as ordens táticas aparentemente esdrúxulas que tinha estabelecido. Mesmo após bastante esforço de “tradução” de suas ideias para algo mais próximo da linguagem e das orientações a que os jogadores estavam acostumados, tarefa na qual ele e o auxiliar trabalharam por quase duas semanas seguidas em jornadas de mais de 12 horas por dia, os primeiros treinamentos de campo após a convocação deixaram claro que aquela estratégia teórica poderia ser inovadora demais para dar certo na prática. E a metade inicial da partida parecia ser evidência convincentemente definitiva dessa hipótese.

Voltando mentalmente uma hora no tempo, revivia com saboroso distanciamento retrospectivo o desespero que sentiu quando, coroando mais de 40 minutos de caos completo, nos quais absolutamente nada do que havia sido planejado tinha funcionado, a medíocre seleção vizinha bancava o visitante indigesto abrindo o placar em plena reinauguração do mais emblemático estádio do futebol nacional, após uma falha de posicionamento bisonha da defesa, em particular do recém-eleito capitão, que olhava desconsolado para o banco de reservas em busca de perdão, reconforto, orientação e mais um punhado de emissões e energias positivas, felizmente oferecidas prontamente pelo auxiliar em seu lugar. Também havia partido dele a observação, sussurrada enquanto se arrastavam os minutos finais da primeira etapa, que provocou o clique fundamental na mente do até então desamparado técnico, tornando óbvia a modificação que corrigiria todos os problemas:

- O time tá muito desconjuntado, a gente não tá conseguindo transformar as bolas que roubamos dos caras em jogadas de ataque. É o meio campo, garoto: nossos caras que destroem não tão encaixando bem com os que constroem.

Destruição e Construção. Aqueles conceitos estavam, ainda que de forma tácita, incluídos na sua estratégia de jogo, mas a formulação do colega o fez perceber que não tinha dado tratamento adequado à transição entre a postura tática defensiva e a ofensiva; a abordagem conceitual deveria ser menos dialética e mais sintética.

- Parece então que precisamos de um pouco menos de Makélélé e um pouco mais de Derrida - respondeu após alguns momentos de introspecção ao auxiliar, que mesmo no pouco tempo de convívio já havia aprendido a relevar aquele tipo de manifestação ininteligível.

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O clima no vestiário durante o intervalo era um misto de desolação e descrença. Os olhares dos jogadores se concentravam apenas parcialmente no discurso motivacional proferido por P.S., enquanto tentavam monitorar o que o técnico tanto rabiscava no quadro branco ao fundo. O que já era confuso estava ficando pior: além dos malditos triângulos que descreviam as opções de passe dos jogadores, agora havia também quadrados hachurados, formados pelas arestas dos mesmos triângulos - “zonas de pressão”, dizia a legenda improvisada no canto do quadro. Mesmo o quase sempre compreensivo capitão, escolhido tanto pelo potencial de liderança sobre o time quanto pelo fato de ter completado o segundo grau (e, com isso, possuir maior familiaridade com Geometria), já havia comentado em um dos treinamentos táticos, em tom de brincadeira, que cada jogador ia precisar de um GPS para conseguir manter os tais “ângulos retos” com relação ao “jogador-vértice”, de tão complexa que parecia a movimentação necessária para manter a formação desejada pelo técnico, manifestando dessa forma uma preocupação que era difundida entre todos os demais e que, agora que estavam diante de um oponente real, parecia de fato ter fundamento. Acrescentar novas formas geométricas não parecia tornar as coisas mais fáceis de jeito algum.

- Professor, qual é o plano B? - perguntou o experiente centroavante, de modo um pouco provocador, irritado por não ter recebido uma bola sequer nas proximidades da área adversária.

- Não tem plano B. Esse aqui é o plano A’. Ou plano A ao quadrado, se preferir.   

Chamou à frente o jogador mais veterano do grupo, um excelente passador até então na reserva devido à pouca mobilidade causada pelo peso dos anos sobre as pernas, indicando que entraria no segundo tempo. Explicou então a ele e aos demais qual seria sua função: substituiria um dos cabeças-de-área, mas se posicionaria um pouco mais à frente no campo, devendo mover-se apenas dentro de uma pequena região em torno do círculo central; serviria assim como referência para o posicionamento de todos os demais, reduzindo desta forma a dificuldade na manutenção da formação. A alteração pareceu agradar aos jogadores, principalmente por valer um lugar no time para o carismático e respeitado médio-centro.

- E qual é a dos quadradinhos pintados? - insistiu o centroavante.

- Estávamos marcando por zona, mas vocês devem ter percebido que essa marcação estava prejudicando a saída de bola, porque demorávamos muito tempo para reorganizar a formação e reestabelecer os vértices. Estes quadrados, que eu chamei de zonas de pressão, são as áreas em que cada um tem que ajudar na marcação, sem sair muito do posicionamento ofensivo. Assim, quando roubarmos a bola, já estaremos prontos para iniciar o ataque. A ideia central aqui é a seguinte: ao invés de destruir as jogadas deles pra depois pensarmos em construir as nossas, temos que desconstruí-las, e usar seus pressupostos táticos a nosso favor.

Foi a vez do auxiliar tomar a palavra mais uma vez, transmitindo orientações mais específicas e tirando dúvidas pontuais dos atletas. Era impressionante como, mesmo sem ter participado da elaboração destas novidades, havia sido capaz de absorvê-las muito rapidamente e traduzi-las para a prática futebolística; realmente tinham conseguido desenvolver uma conexão intelectual muito interessante. Com os detalhes e esclarecimentos adicionais de P.S., os jogadores começaram a se convencer de que aquilo talvez pudesse funcionar, e voltaram mais confiantes para o segundo tempo, com impacto imediato. O gol de empate nasceu mais do talento individual do ponta-esquerda do que da eficácia do sistema tático, apesar de a jogada ter sido iniciada em uma roubada de bola provocada por uma “zona de pressão”, e o da virada contou com um grande componente de sorte: o centroavante, ao tentar dominar um cruzamento vindo da direita, acabou encobrindo o goleiro adversário. Mesmo assim, a evolução do time foi notável, com a tática passando a encaixar de forma mais natural, permitindo aos jogadores uma atuação mais solta, menos robótica. O grande destaque foi o meia substituto, que incorporou à função de referência a de regista, coordenando a movimentação da equipe em campo. Coincidentemente, foi o último a vir ao seu encontro para os cumprimentos conglaturatórios ao fim do jogo, merecendo um longo abraço e um agradecimento especial, além da promessa imediata de titularidade permanente.

Na saída de campo, ao percorrer o corredor formado por paredes de repórteres, câmeras e microfones, só conseguia pensar na redenção que estaria estampada nas manchetes dos jornais no dia seguinte. Ledo engano. A capa do diário esportivo mais importante do país já estava sendo enviada naquele exato momento para as rotativas, e trazia em letras garrafais:

 “TALENTO INDIVIDUAL SALVA NOVA SELEÇÃO DA HUMILHAÇÃO”

(Continua)